21/09/2011

Na mão de Deus

Procurava, trémula, errática, a minha mão, para que lha segurasse, à sua mão. Ali estávamos, o cerimonial íntimo do silêncio, a forma muda de nos absolvermos de todo o tempo perdido, da vida que não vivemos, do coração ressequido pelo veneno dos ressentimentos e do que sofremos juntos sem sabermos sofrer sem ser sozinhos. 
E o medo, um medo não admitido e vestido com cores de esperança, a língua do oxalá e tantas as formas há de o dizer, esperando um milagre que traga da vida ao menos um vestígio balbuciante.
Os olhos perdidos num horizonte invisível, como se fixados num Ser que a esperasse, já ao mar indiferente e ao próprio sol, a litania da dor, que o corpo desfaz-se para que outra vida surja daquela vida que me tinha dado a vida. E eu ali, provisório, sem saber como se pronuncia com gestos a palavra Mãe.

06/08/2011

O real sem memória

Lembrei-me da história porque por causa dela apanhei uma pneumonia. Estava no Liceu, em Viseu. Nesse ano fomos passar férias à Costa Nova, talvez por ser mais perto e a minha mãe detestar a Figueira no âmbito daquele sentimento geral de detestar tudo, incluindo a Costa Nova e a ideia se passarem férias.
Arrendámos uma casa ligeiramente longe da praia, nada que o nosso DKW não resolvesse. 
Um fim de tarde alguém fez saber por ali que um cachalote tinha dado à praia, morto.
Claro que aos quinze anos tudo é novidade, sobretudo ali onde nada sucedia e pouco acontecia. Além do mais, eu era um ser errante e sofrido, que nas horas mortas vagueava pelas dunas embrulhado em pensamentos que me amarrotavam os sentimentos. A vida real, sobretudo a inesperada, irrompeu assim, alma adentro como uma vaga turbulenta.
Bom, corrida para cá, corrida para lá, mais a cacimba do entardecer, imagina-se o resultado. Primeiro uma tosse persistente com expectoração. Depois quando veio a febre levaram-me ao médico.
Não cheguei a dar à praia, mas lembro-me do bicho, enorme, estendido no areal, a exalar um cheiro pestilento. O mar não o quis acolher, agora inútil.
A foto que publico não é a de então. O semelhante serve quando o real foi, sem memória

22/05/2009

Luzes da ribalta

Graças à magnífica intervenção do Jorge Sequerra e do José Neto, actores natos, consegui levar à cena uma peça de teatro. Chamei-lhe Não te esqueças do meu isqueiro. Fui buscar a frase a um dos calabouços da Boa-Hora. Foi escrita por uma presa enquanto aguardava julgamento. Impressionou-me pelo que significa, pelo que implica. Foi ontem à noite nos claustros da Boa-Hora. Não é fácil escrever-se para teatro. À boca de cena, iluminada pelas ribaltas, a vida proclama-se de quem escreve por quem diz para quem vê.

28/12/2008

I am the walrus

Tinha dezoito anos. Subi a rua do Carmo, com um amigo meu. Perguntámos se podíamos ouvir. Nem um nem outro tínhamos dinheiro para comprar. O empregado tirou o disco. Era um duplo álbum. Um duplo álbum dois discos de quarenta e cinco rotações, em formato EP. Quem sabe hoje o que isso significa? Colocou no prato, a agulha em diamante a girar, as espirais brilhando. Partilhámos os auscultadores, as faces incendiadas de emoção. Que a do meu gira-discos - ah! que palavra esta... - era de safira!
Ainda hoje recordo. Uma música estranha, estupenda, vinda do fundo dos mares, das tripas da terra, uma música carregada de tudo quanto eu julgava que era um mundo de diferença, de revolvente diferença. Foi. E o que foi se nos retorna como esperança de futuro. Ouvi-a há minutos, aqui.

28/09/2008

Mas mãe!

Fez hoje treze anos. Olhei para ele e tinha finalmente a desenharem-se feições de rapazinho. Comparado com esta fotografia, enfrentava, enfim, as dores de estar a afirmar-se como criatura, uma ligeira nostalgia silenciosa no olhar. Ainda ontem era aquele ser de ar suplicante, os olhos duas bagas ansiosas a concitarem carinhos e simpatias. Por causa dessa aparência grudou-se-lhe, irremovível, como um cognome, ou um petit nome o mas mãe! Magnífica criatura, o meu Afonso.

18/09/2008

O homem que mandava passar os comboios

A minha rua, na cidade de Malanje onde nasci, chamava-se Vasco da Gama. Ao topo ficava o mercado, ao cabo, a linha do caminho-de-ferro. Era por ali que deambulava quase sempre sem companhia, outras vezes com o Gégé, filho do Lucas funileiro e com a Maria Luísa, hoje professora de matemática, filha do Augusto Simão, que me queria oferecer uma bicicleta e onde comprávamos sacas de milho para as galinhas que nos enchiam a capoeira.
Da «Quitanda», assim se chamava o mercado, lembro-me apenas do sino que tocava o meio-dia.
Já a linha do caminho-de-ferro é uma memória vincada que me fica. Passava ao fundo da minha rua, interrompia a minha rua, era o limite além da qual poucos brancos já viviam.
Se eu tivesse tido tempo, as questões ferroviárias, com todo o seu caudal de organização militarizada, de regulamentos e apitos, vigílias nocturnas e altas velocidades, ter-me-iam ocupado o espírito de qualquer forma. Como não sei, todo aquele concerto de homens e metais, de movimento e de espera, teria de ter encontrado em mim um modo qualquer de se expressar. Ficou como memória, como sentimento de nostalgia pelo que poderia ter sido.
Lembro-me das locomotivas a vapor, ronceiras e fumarentas no treca-treca de arrastarem atrás de si a centopeia de intermináveis composições; mas lembro-me, como poderia esquecer-me, a alegria das primeiras máquinas a diesel, brutais em altura e em majestade, as «Garrats» possantes, o rugir cavo dos seus motores, o silvo atroador do seu apito. Como me pareciam gigantes, imensas, montanhas metálicas roncando as entranhas da terra.
De Malange a Luanda eram quatrocentos quilómetros que levavam doze horas numa via reduzida impregnada de pó barroso. Parava-se na Canhoca para almoçar, sopa de feijão a escaldar.
A passagem dos comboios ao fundo da minha rua pressentia-os já, não pelo horário, que julgo nunca terei chegado a saber, mas sim pelo progressivo aproximar-se do «pouca terra» entrecortado com «úaaaa úaaa» com que a máquina anunciava a sua chegada.
Lembro-me do guarda da linha.
Lembro-me da sua fardeta manhosa e esburacada, dólmen de autoridade ferroviária, a bandeira vermelha na mão.
De carapinha branca, o rito digno dos velhos negros, o guarda da linha ocupava o seu imenso tempo livre a fabricar sapatos que recortava de velhos pneus. Antes de eu ter sabido o que eram sapatilhas de ténis, aqueles foram as primeiras que vi fazer pelo homem que mandava passar os comboios.

07/06/2008

A pausa de silêncio

É o jardim da cidade onde nasci. Vê-se de lado, a nesga da estação dos caminhos de ferro. Fazia parte do ritual nocturno ir-se esperar a chegada do comboio, vindo de Luanda. Passeava-se por ali, apanhando o fresco, num topo da praça o edifício do Banco de Angola, no outro o do Tribunal, a meio o Palácio do Governo, e entre as árvores e os buxos, num volteio citadino, naquela pequena aldeia, os senhores e suas senhoras, comerciantes, funcionários, empregados de outros. Quais póneis de cortesias, cumprimentavam-se todos, baixando a cabeça, levando a mão ao chapéu, fazendo o gesto de o tirar, não altura não se beijocavam as senhoras. Poucos estavam de relações cortadas.
Depois, chegada a locomotiva, era ver chegar quem viajara, ratar na casaca, de modo metódico e sistemático sobre cada um dos passageiros.
Tratado o figado, por esta descarga de bílis maledicente, voltava-se ao picadeiro, os mesmos casais, com e sem filhos mais os seres ainda não aparelhados, cumprimentando-se de novo, dois dedos de conversa banal e por vezes enfastiadamente forçada, além o como está e passe bem, e sempre o rodopiar, rodopiar, até que pelas nove tudo confluía para a estação dos correios.
Ficou-me desse tempo no recôndito da memória auditiva, o trautear ritmado do carimbo a martelar envelopes, metidos, um a um, nas filas de caixas postais. A nossa era a 131.
Dentro do carro, num frenesi, eu, de calções, ia e vinha e voltava a ir em busca de cartas, mais uma, chegou outra, vieram mais duas. Depois, era o ritual pesado, o meu pai a lê-las, comentando com a minha mãe, deixando no ar uma pausa de silêncio em algumas delas, eu indiferente ao mistério, ansioso por mais e mais correspondência, sem perceber o que era isso de haver más notícias.
Pelas dez, que me recorde, devíamos estar todos em casa, a dormir. Não mais acordei desse sono profundo, típico de uma infância inocente. Hoje, ao ver esta fotografia, tive a certeza de que estava a sonhar.